30 de ago de 2009

Ensaio nº 1 - A Carniça: Uma Polêmica Célebre, primeiras considerações

Em fins do século XIX, mais especificamente, no ano de 1888, o filólogo, gramático, professor acadêmico e jornalista Júlio César Ribeiro Vaughan, ou simplesmente Júlio Ribeiro (1845-1890), publica seu segundo e último romance, considerado pelos pesquisadores contemporâneos em literatura brasileira como “um dos livros mais discutidos e mais populares do pais”, dedicado especialmente ao “príncipe do naturalismo” francês Emilio Zola: A Carne.


Diferentemente do primeiro, O Padre Belchior de Pontes, lançado dez anos antes, a obra do mineiro, nascido na cidade de Sabará, recebeu os piores qualificativos dos críticos de sua época, sendo seu autor taxado de imoral e indecente, “promovendo um indisfarçável mal-estar na crítica do tempo” e o livro, estigmatizado como “o mais irrelevante e pornográfico das letras brasileiras”.


Dentre todos aqueles que recorreram à pena para atirar pedras ao escritor (como os críticos José Veríssimo e Alfredo Pujol, só par citar dois exemplos) um deles tornou-se o mais ilustre. Ativo membro do clero católico e, de passagem pelo Brasil, o erudito e também polemista português Senna Freitas, obtendo boas relações entre os acadêmicos da época, inclusive com Júlio Ribeiro, ousou atacar a obra do mineiro, espetando-a com sua pena de aço e sacudindo-a para dentro da carroça de lixo da cidade. Sua crítica fora publicada no Diário Mercantil assim que o lançamento da obra ganhava notoriedade entre os cidadãos que desejavam, intensamente, adquirir a narrativa, “de exaltação dionisíaca”, publicado pelo livreiro Teixeira. Antes mesmo de sua publicação, e Senna Freitas aponta este detalhe em sua resenha, o livro já era aguardado com ansiedade. “Não faltou ao romance, ainda na época da gestação, a fanfarra do anúncio prometedor, nem tão pouco lhe tem faltado, depois de nascido e exibido nos livreiros, o cartaz de esquina e o artigo de jornal”.


O padre portava-se, em sua crítica, como o detentor da moralidade brasileira, atacando tanto a obra quanto o autor, intitulando o artigo do referido romance como A Carniça. Segundo o crítico, o enredo era frouxo, inverossímil, incoerente, e de chofre, advogava ideias como o amor livre e bissexual. Contestava o escritor quanto ao seu gosto literário, afirmando que de nada adiantava revestir a luxúria e o pecado em expressão estética, afirmando em seguida que “Júlio Ribeiro deixou a demonstração que a forma não é tudo. A forma não consegue salvar o fundo quando o fundo é detestável” continuando em seguida, “porém causa engulho e muitíssimo pesar o ver que toda aquela roupagem cetinosa, que toda aquela joalheria são destinadas a ataviar um acervo de obscenidades indignas de um homem que se respeita e respeita o público para quem escreve”.


David Perdigão Lessa aponta em seu ensaio que, devido ao preconceito dos críticos do século XIX aos temas carregados de erotismo dos romances da estética naturalista, seus autores viam-se na obrigação de explicar o conteúdo de seus enredos para que não sofressem novos ataques. “Esse fato fez com que alguns autores (...) defendessem suas obras da fúria dos críticos mais exaltados. Defesas essas que foram feitas em jornais, revistas e até mesmo em prefácios”.


Júlio Ribeiro foi um destes. Decide responder as afrontas do padre português com uma série de artigos que foram publicadas na Província de São Paulo. Segundo o professor Carlos Alberto Iannone, “Júlio Ribeiro chama-lhe ‘Urubu’, pois farejava ‘carniça’. Inicia-se desta forma a polêmica que encheu de espanto os habitantes da pequenina Paulicéia e que mais tarde foi reunida em volume sob o título Uma Polêmica Célebre”, compilado pelo escritor Victor Caruso e publicado pelas Edições Cultura Brasileira, em 1934.

Bibliografia

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Discurso do Sr. Manoel Bandeira. In: Discursos Acadêmicos - Tomo III, 2007, acessado em http://www.academia.org.br/abl/media/Tomo%20III%20-%201936%20a%201950.pdf, 14/04/2010.

BULHÕES, Marcelo Magalhães. Leituras de um livro obsceno. In: A Carne. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002.

________________________. Leituras do desejo: o erotismo no romance naturalista brasileiro. São Paulo: Editora Edusp, 2003.

IANNONE, Carlos Alberto. A obra de Júlio Ribeiro. In: A Carne. São Paulo: Editora Três. 1972.

LESSA, David Perdigão. Júlio Ribeiro e a crítica literária. IN: Gláuks - Revista de Letras e Artes. UFV, v. 7 n.2, pp. 157-175, 1996.

RIBEIRO, Júlio. A Carne. São Paulo: Editora Três, 1972.

12 de jul de 2009

Crítica - Metafísica, filosofia, arte... substância ou vibração? Divagações de um sujeito inumano

A teoria da arte no século XX é pautada pela quebra de paradigmas, pela incerteza das teorias e pelo questionamento de todos os valores morais (fundamentados à partir de uma mentalidade altamente burguesa) que aprisionaram a sociedade ocidental durante a hegemonia radical e perversa do pensamento judaico-cristão.

Depois de duas grandes guerras, o artista não podia mais continuar contemplando a vida, ou melhor, a destruição da mesma. O homem se desintegrou. A identidade deste sujeito descobriu-se múltipla, analisada sob diversas perspectivas. O EU tornou-se uma ilusão. E a matéria? Tudo isso que envolve e dá suporte a este sujeito cindido, do que ela é formada?

A crise da dúvida também afeta a produção do saber contemporâneo, quando relatos de pesquisadores, comprometidos com a física moderna, nos chegam afirmando que tudo que forma a matéria, na verdade, são compostos de átomos passíveis de vibrações. Então os átomos não são elementos sólidos? A mesa, a cadeira, as massas que ocupam lugar no espaço, a natureza, o sol, os astros, são formados de partículas que interagem formando ondas? Como assim? Percebem que o paradigma do pensamento científico caminha para uma mudança? Então a arte também tem que acompanhar esta evolução do modo de pensar.

E talvez seja este o nosso propósito quando aceitamos participar do Projeto OH: Sobre a contemporaneidade do som, que vai acontecer no dia 15/7/2009, no Espaço Cultural Sérgio Porto. Ali, gritaremos para o mundo que a lógica não é soberana e que as sensações de nossos corpos também podem reger partituras de movimentos que criam outros sentidos, não o racional, o que satisfaz o espírito, mas aquele que nos impulsiona, que nos faz agir ou que nos mobiliza para uma vontade de reagir. Esta é a busca pelo som inarticulado, portador de uma pulsão que toma de assalto nossos orgãos sensoriais, produzindo movimentos, satisfazendo a natureza de nossa vontade que responde, criativamente, por meio de modulações variadas: alto, greve, médio e por ai vai.

Parece loucura, mas este é o princípio que norteia a minha arte, ou a arte daqueles que buscam a essência das coisas, e que não se satisfaz somente com o belo, com a separação da arte e da vida, que se contenta com a superficialidade que determinados segmentos artísiticos contemporâneos insistem em empurrar guela abaixo, cobrando ingressos caríssimos para contemplar a mediocridade de espetáculos que propagam a felicidade imitando, aqui, o modelo estrutural de outros países, que cantam e dançam para uma plateia morta e que se acham cultas só porque frequentam estes teatros.


Quatro Sonetos à Afrodite Anadiómena. (Poemas do português contemporâneo Jorge de Sena)
Com Guto Urbieta, Jackie Netzach, Michelly Barros e Pedro Allonso
Concepção: Jackie Netzach,
Seleção de texto: Eduardo Camenietzki,
Orientação: Elielson Barros,
Intervenção que mescla poesia e seus estímulos sonoros e corporais.


SERVIÇO OH
Espaço Cultural Sérgio Porto
Endereço: Rua Humaitá, 163 - Humaitá
Data: 15/07/2009
Horário: 19h
Preço: R$ 4
Classificação: Livre
Informações: 21. 2266.0896

Evento OH, dia 15/7, às 19h no Espaço Cultural Sérgio Porto


Quatro Sonetos à Afrodite Anadiómena. (Poemas do português contemporâneo Jorge de Sena)
Com Guto Urbieta, Jackie Netzach, Michelly Barros e Pedro Allonso
Concepção: Jackie Netzach,
Seleção de texto: Eduardo Camenietzki,
Orientação: Elielson Barros,
Intervenção que mescla poesia e seus estímulos sonoros e corporais.

SERVIÇO OH
Espaço Cultural Sérgio Porto
Endereço: Rua Humaitá, 163 - Humaitá
Data: 15/07/2009 Horário: 19h
Preço: R$ 4
Classificação: Livre
Informações: 21. 2266.0896

9 de jul de 2009

"[...] A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muita barulheira, que nada significa".

Crítica - Som e Fúria: qualidade e diversão garantidos

Há quanto tempo que eu não me entusiasmo com um trabalho produzido para televisão! Põe tempo nisso... Este SOM E FÚRIA, que está sendo exibido atualmente na Globo, me motivou a assistir televisão novamente! Me fez olhar para o relógio, nesta quarta feira à noite, e desejar a morte de todos os jogadores de futebol e de todos os narradores esportivos - principalmente daquele chato-mor, que acredita carregar em sua voz, o grito emocionado do brasileiro médio e semi-alfabetizado - ávido para que aquela transmissão acabasse logo, e que eu pudesse assistir ao seriado, sentado na minha cadeirinha, beliscando umas azeitonas, ou, à moda Hommer Simpson, relaxando e bebendo uma cervejinha, sem me importar com frio que tem feito ao caír da noite... É a primeira vez que vejo Shakespeare sendo tematizado na televisão, e vou mais além, nunca vi a dureza, os transtornos, a vaidade, as frustrações, tudo que circunda a estrutura do fazer teatral sendo representado na sua integridade, na sua inteireza, sem falsas representações. A linguagem do seriado, na simplicidade com que o enredo é conduzido, sem hermetismos de estilo (ao contrário das últimas produções dramaturgicas exibidas no horário) permite que se faça televisão no teatro e vice-versa, encerrando no Teatro Municipal de São Paulo a metáfora do palco como mundo contemporâneo, onde todos os personagens-atores se preparam para encenar Hamlet. Felipe Camargo brinca em cena. Está mais do que claro que este é um dos grandes papéis de sua carreira. Aliás, o elenco desta microssérie foi escolhido à dedo.Som e Fúria é o grito pela renovação do repertório televisivo, que insiste em nos empurrar, guela abaixo, as mofadas e engessadas novelas (sombras ambulantes, histórias contadas por idiotas) em seus tradicionais horários e que nada significa.

27 de abr de 2009

Crítica - Sobre o suicídio

A estréia, no Espaço SESC, do mais recente espetáculo da Cia. Ensaio Aberto, não foge à linha de atuação artística do grupo, que tem no engajamento político sua marca registrada. Aqui, o material utilizado pelo encenador Luis Fernando Lobo é um artigo pouco conhecido do filósofo alemão Karl Marx, publicado em 1846, que por sua vez, utilizou-se de fragmentos de memórias, publicadas pelo diretor dos arquivos da polícia francesa, Jacques Peuchet, também no século XIX, onde relatava casos de vítimas, em sua maioria, mulheres de origem burguesa, que resolveram se matar por motivos particularmente reconhecíveis àquele meio social: pressão familiar e da sociedade, autoridade paterna, dominação do sexo masculino sob o feminino e por aí vai.


A linguagem do espetáculo é completamente narrativa, preferindo o encenador trabalhar com o material bruto do texto de Marx, ou seja, o espectador assiste, ou melhor, ouve, através dos atores, o conteúdo do artigo escrito pelo pensador alemão. Em Sobre o suicídio, o texto é pronunciado de forma crua, sem que haja, no ato da narração, qualquer resquício de construção de personagem. Aliás, não há personagens mimeticamente elaborados e vividos em cena, que dialogam entre si como numa dramaturgia convencional. O que há, ali, é o texto, um grande e pesado bloco de palavras e suas diversas formas de enunciação.


O elenco formado por Fernanda Avellar, Françoise Berlanger, Tuca Moraes e Luis Fernando Lobo, ora intercalam as réplicas, ora dizem, todos ao mesmo tempo, as passagens extraídas do artigo de Marx, numa polifonia que põe, de igual para igual, a voz dos atores (uma atriz estrangeira integra o elenco), a trilha sonora de Felipe Radicetti, a iluminação rigorosa de Jeff Dubois que auxilia na criação de espaços e de imagens que se desprendem da narrativa, principalmente nos casos relatados em primeira pessoa, além das várias projeções em vídeo, utilizando documentários de razoável repercussão no debate social, elaborados por Batman Zavareze e Fábio Ghivelder. Todos estes dispositivos juntos, não só contribuem para preencher todo espaço da cena, como também perturbam, positivamente, a concentração da platéia-ouvinte. Todos estes signos, auxiliados pelos poucos adereços cênicos manipulados pelos atores, preenchem o palco. Encaro este ponto de vista como um interessante desafio para quem está no lugar do público, pois o espetáculo exige tanto um espectador atento quanto uma atenção redobrada ao que está sendo dito em cena, retirando a platéia do lugar confortável da pura contemplação. A encenação, neste caso, funciona como um verdadeiro embate entre o que é dito-lido, quem fala-lê e quem ouve.


A intermidialidade, tematizada na projeção das imagens, funciona como uma espécie de janela que se afasta brevemente do quadro social do século XIX e dos relatos das suicidas, narrados por Peuchet, mas que se relaciona na reflexão dos problemas contemporâneos, que ainda são encarados como tabu, como pudemos assistir na projeção do trecho em que acompanhamos mulheres humildes relatarem seus casos de aborto. Neste caso específico, o diálogo estabelecido se dá na identificação, nos dias de hoje, de casos que também deveriam ser tratados pela saúde publica, porém são negligenciados pelas autoridades, por questões tanto morais quanto religiosas - como o suicídio, detectado por Marx em seu artigo - evidenciando ainda mais os sintomas de uma sociedade doente e abandonada à própria sorte.


Elogios à parte, é necessário dizer que alguns atores, pelo menos no dia da estréia, ainda não tinham encontrado o tom certo de pronunciar o texto, incorrendo em visíveis erros de marcação e em exageros de vocalização, falando o texto de forma gritada, mesmo com a utilização do microfone. Acredito também que alguns minutos a menos seriam bem vindos para que a platéia pudesse encorpar melhor, tanto a denúncia contida nos escritos de Marx, quanto a proposta estética da companhia neste espetáculo, pois ficou nítido que o cansaço pairou sobre a platéia do SESC no dia da estréia. Mesmo assim, considerando que estas ressalvas possam ser verificadas no decorrer da temporada, considero um espetáculo sério, político e também, contrariando ao que muito foi dito, teatral.