28 de out de 2011

Conto 12 - Coisas indefinidas

Um desconhecido atravessou a avenida movimentada, em plena tarde de sexta feira, e entregou a encomenda para outro desconhecido, que esperava pacientemente na calçada do sentido oposto. Disfarçou, aproximou, passou a mala, deu meia volta e, novamente, cruzou a pista, retornando para o lado original em que estava. Sacou um celular do bolso e iniciou conversa com alguém.

No instante em que os corpos dos dois desconhecidos estiveram muito próximos um do outro, e em fração de segundos, cumpriram com suas obrigações, eu, o terceiro desconhecido, atleta-literato-voyeur, preso num veículo de transporte coletivo insuportavelmente quente, parado no engarrafamento, notei, percebi, pude observar, dei a sorte de captar, flagrar o instante preciso em que o ato camuflado daquelas figuras morenas era posto em execução. Eu não te conheço. Não diga uma palavra quando me ver. Não se dirija a mim. Entregando a bolsa, você cai fora. Não me olhe. Não puxe papo. Não seja legal comigo.

Caos, trânsito, policiais, vendedores de água de coco, cordões de prata à dez reais, anéis com inscrição de Jesus Cristo, fiscais de transportes ilegais (vários), shopping center, carro, ônibus, multidão, sinal vermelho. Velhas, crentes, crianças, guardas de trânsito, apitos, emos, roqueiros, skatistas, lojistas, marginais, crianças de rua, pastel do japonês, mães, viados no banheiro, postos de gasolina, estacionamento... e, em plena efervescência de um dia agitado, em questão de segundos, num horário acima de qualquer suspeita, traços riscados no ar, em forma de figuras humanas, foram flagrados por mim cumprindo um dever. Eram cinco horas da tarde, Um deles atravessou a avenida, entregou a mala sem fazer alarde, sem ser percebido pelos demais, e foi embora.

Durante o trajeto da volta para casa, a cabeça estava posta para fora da janela. Observava com ares de curiosidade o interior dos automóveis e o que poderia haver ali dentro que chamasse minha atenção: o comportamento do motorista, seus modos, como dirigia, se falava sozinho, se batucava com os polegares no volante, se ouvia música, se estava irritado. Tudo muito rápido. Eram flashes, imagens-relâmpago. Apenas uma vez na vida, depois nunca mais. Seria impossível estar ali novamente e ver os mesmos rostos, frisar as mesmas reações no mesmo lugar e no mesmo instante presente. Um séquito de veículos transitava pela avenida estreita, todos com pressa, um atrás do outro, tentando ultrapassadas impossíveis.

Com as pessoas que esbarramos na vida também é a mesma coisa. Dependendo do contato, superficial, intenso, pode durar um minuto, uma hora, um ano ou uma eternidade inteira, depois que se acaba, depois que passa, parece que nunca houve, nunca esteve, nunca viu. Sei e ao mesmo tempo não sei mais de sua vida, também não quero saber. Passou, como os carros e seus motoristas passaram por mim, fumando um cigarro, conversando ao celular ou dirigindo sem o cinto de segurança.

Na hora em que eu estava prestes à desembarcar, percebi que não havia espaço adequado para me locomover dentro do automóvel, visto que aquela zona de acesso entre as poltronas fora ocupada por pessoas irritantemente espaçosas. Uma criatura, disfarçada de serva de Deus, com um vestido roxo dos pés à cabeça, por exemplo, estava sentada ao meu lado, roçando aquela coxa gorda e suada na minha perna, como se a atmosfera sufocante daquela tarde já não fosse suficiente o bastante para evitar qualquer tipo de contato mais próximo. Eu estava com nojo dela e queria que ela morresse. Ou eu é que queria morrer por estar ali dentro passando por aquele sufoco. Ela teria que se levantar para dar passagem, senão eu passaria por cima dela, pouco me lixando para sua condição de evangélica pobre e mal amada, o que não deve deixar de ser verdade.

Quanto aos dois desconhecidos que mencionei no início do conto, não faço a menor ideia da continuação da história de suas vidas. Não me dei ao trabalho de soltar da Kombi para ir ao encalço deles. Teria que me dividir em quantos? Todavia, poderia inventar uma situação de morte. Foram atingidos por alguma tragédia de ordem natural. Decidi, então, transformá-los em criaturas dependentes do meu estado de humor para existirem. Eu tenho capacidade para isso... Mas não! Decidi manter-me fiel ao curso do tempo. Nada de invenções. Nada de final coeso. Não sei deles. Se foram. Cada um foi para o seu lado. E nunca mais eu voltarei a vê-los.

23 de out de 2011

Conto nº 11: Exposição de sentenças

Primeira inspiração Bob Dylan // Depois uma boa ideia // Meus dedos estão dormentes // Encosto uma unha na outra // Percebo as sensações aguçadas // As formigações incomodam // Peço um minuto // Vou alongá-las para ver se a angústia // Passa // Necessidade de nicotina // Tudo se fecha inclusive os bares // Se pelo menos tivesse alguma birosca aberta // De preferência // Próxima da minha casa // Acabei de cortar uma frase desse texto // Achei meio prepotente // Não quero bancar o ridículo e // Cortei outra frase // Idiota // Puta que pariu que vontade de fumar // Tô na seca literalmente // O indivíduo está há na merda há dias e gasta toda grana dele em // Sonhos gordurosos de leite condensado da padaria e // Tudo que faz é pensar no tempo // Cigarros // Come // Pensa nos dias em que conviveu com sua avó // Sonhos gordurosos de leite condensado da padaria e // Já morreu // Pensa nas palavras que ainda vagam pela sua cabeça // (...) // Gasta toda grana dele // A avó dizia que quando ela morresse, ele sentiria muito a sua falta // Era conhecido na família como o "puxa-saco da vó" // Sofrera quando a velha partira dessa para a melhor // Não sofrera tanto // Não como tinha que ser // Não como sua avó achava que ele sentiria // Teve culpa // Chorara // Adolescente de treze anos // Não sentira tanta dor // A prima do seu pai fizera maior escândalo // Uma tsunami misturada com terremoto no Japão // Dor e luto // Não era competente o bastante // Fazia grandes alusões // Nada que fosse // Possível // Quando ele morrer // Sua cabeça // Me deixa quieto // ? // Tem uma imagem que não sai da cabeça // Música // Volume // Palavra // Nada é linear // Hurricane // Não gosto muito // Ouço-a quando penso na mulher com véu no deserto // Imagem em preto e branco // O véu que esconde o cabelo da muçulmana // Afirmava uma presença // Preenchia um espaço // Não era teatro // A forma era trágica // Um véu que voa no vento é trágico // Uma figura andando no meio fio // . // Um dia não devia ter só vinte e quatro horas // Necessidade de ter que me dar bem aos trinta anos de idade // As coisas têm que acontecer agora // Ou vou ter que aguentar os escárnios da vida // Me apontando os dedos inchados pelo ódio me recriminando pelas ruas em forma de parente // A titia simpática e engraçadinha // Uma velhinha maluquete e meio bêbada que adora saber da rotina dos sobrinhos queridos // Não quero pontuar essa frase nem os parágrafos que não existem // Mas as ideias vão dar certo // Não penso mais em sexo // Estou só com trinta anos de // Idade // Como não pensar mais em sexo nem em prazer // Um broxa contaminado pela (in) felicidade do instante que ainda há de te pregar uma peça // Não vai chegar nem ao fim da trepada // E que fim seria esse // Caos total // Não pode haver destruição da alma sem cigarros // Então adio o final da existência para semana que vem // Só me resta enganar o espírito e mentir que quero ser um burocrata // Um corporativo // Empresário comprometido com a sustentabilidade do planeta // Vou dar palestras // Isso // Elaborei planilha // Há um lindo painel explicativo // Os estandes estão abertos à visitação senhores // Coffe breake // Cafezinho // Biscoitinhos // Fudeu // O vício volta a atacar // Há dias que fiquei longe dessa praga // Não não é isso // Não comentei com ninguém // Eu estava a caminho do teatro dentro do // Metrô // Não estava mais fudendo com ninguém // _*%&$¨¨*}@# // Estava bem de verdade // Se fosse no mês passado estaria tirando a camisa pelas pernas e o short pela cabeça // Criar imagens é algo genial // Caí na perdição novamente // Conversei com um cara que queria morrer // Queria levar uma surra até perder os sentidos // Queria ter a cabeça estourada // Adicionei no MSN

18 de out de 2011

Fotos da performance Carne

Vou disponibilizar aqui no meu blog o endereço onde estão as fotos da performance que apresentei no XIV ENEARTE, em Ouro Preto, em Setembro de 2010.

Só para contextualizar, esta performance foi elaborada a partir de um fragmento colhido do romance A Carne, do naturalista Julio Ribeiro. Dentro deste trabalho, foi tematizado não só a perversão, como também o lugar de voyeur do público que se coloca no lugar do sádico, O espectador testemunha o artista oferecendo-se como objeto de desejo ou de ira. Este se entrega e estimula o indivíduo a açoitar seu próprio corpo. Persegue-se essa pulsão animal que está em estado de latência na criatura humana. Esta apresentação nas imediações da UFOP foi uma experiência realmente incrível! Os créditos são de Nayara Gelin. Acessem as fotos, clicando no link abaixo:

http://www.flickr.com/photos/nayaragerin/sets/72157624881873399/with/5012342357/

Outros textos sobre a performance publicados aqui no blogue.

http://otragicomicobrasileiro.blogspot.com/2010/06/exposicao-da-carne.html

http://otragicomicobrasileiro.blogspot.com/2009/08/carnica-uma-polemica-celebre-primeiras.html

http://otragicomicobrasileiro.blogspot.com/2010/08/enearte-ouro-preto-2010.html