2 de fev de 2012

Conto 13 - O sono interrompido

Um homem caminhava entre corpos, dejetos, vontades, excrementos e gozo. O lugar da satisfação permitia a exposição mais íntima, o compartilhamento de prazeres escancarados. A hora pouco importava. Quanto mais madrugada adentro fosse, mais o risco atiçava-lhe a fome de orgia. A Rua do Ouvidor era a entidade maldita que indicava, em seus ouvidos, o caminho certo a ser trilhado por vias tortas. Estava próximo à Igreja da Candelária. Dali de dentro, podia se ouvir o som do pecado que gemia dando o cu. Gemido abafado que vinha da floresta de zumbis em forma de libido. Espasmos que ajudavam a alargar o esfincter e provocar a sensação de deleite do viciado em convulsão. O sangue escorria da ferida aberta. Era o cheiro da rua imunda! Eram baratas esbarrando em montes de fezes humanas. Viu a cena: Um cara defecava na calçada, encostado à pilastra do edifício. Horário ilícito. Beco das trevas. As relações humanas dispensavam a praxe dos formalismos. Não conseguia se mexer. Viu o esvaziamento humano. Acompanhou até o fim. Tinha que cagar. Onde cagam os moradores de rua? Pensou nas moscas. Pensou nos insetos! Era um cara higiênico! (Preferiu se afastar). Limpou a bunda. Pedaço de jornal. Matéria. Fatos do dia. Imagem. Herdeiro de bilionário carioca atropela manifestantes que diziam não à impunidade. Todos os mortos perderam cinquenta pontos na carteira. A merda borrava a foto do infrator-filho-empresário. Intervenção estético-orgânica produzido em suporte descartável. Levantou a calça. Andou em direção à Avenida (..) Deitou-se num papelão semi-novo. Voltou ao sono interrompido!