Datas: 06 e 20 de outubro
Investimento: 150 reais
O enfoque do projeto é oferecer, aos participantes interessados em cultura geral, uma abordagem panorâmica dos aspectos mais relevantes do movimento teatral brasileiro no século XX, a partir das publicações em periódicos especializados no assunto.
Por esse âmbito, pretende-se resgatar os fatos, as modificações estéticas, rupturas e divergências de pensamento, buscando como fonte de estudo e análise artigos, matérias e entrevistas concedidos pelos próprios atuantes, ou seja, atores, diretores, críticos e técnicos, a diversas revistas teatrais brasileiras que circularam no século XX. O olhar privilegiado de investigação se deterá no relato de todos os envolvidos na máquina de fazer espetáculos, resguardados nas páginas amareladas destas revistas.
O aspecto panorâmico do curso não visa a dar conta de uma totalidade, o que seria impossível, mas, a partir do que se considera como mais importante em cada fase histórica da nossa cultura cênica, é possível verticalizar as discussões, permitindo, nessa volta ao passado, detectar nuances de um fazer artístico que insiste em dialogar com o nosso presente histórico.
Tal esforço se insere numa tentativa de instigar no aluno, com ou sem nenhum prévio conhecimento nos assuntos artísticos, a capacidade de pensar o fazer teatral num cenário mais amplo, não restringindo somente a sua importância dentro das quatro paredes virtuais que protegem os palcos, mas sim num raio de atuação que expande as fronteiras do território prático da cena, ou seja, o teatro como lugar de reflexão social e estético. O teatro como diversão, mas também o teatro como campo de batalha ideológico.
A partir dessa compreensão, as discussões que pretendemos que surjam, no diálogo com o participante, partem de alguns pressupostos que descreveremos a seguir: Em primeiro lugar, pretendemos unir esforços para pensar como esses discursos, que não possuem o formato de uma narrativa estruturada pela história, podem ser fundamentais para formar novos olhares e pontos de vista de uma fase que já passou cronologicamente. Em segundo lugar, chamaremos atenção para a importância desse tipo de publicação na nossa área de atuação. Geralmente essas revistas especializadas têm vida curta, embora os esforços valiosos dos seus realizadores sejam de manter, o mais longamente possível, a duração dessas publicações. Por fim, tentaremos entender o conceito de teatro nacional no decorrer do tempo, já que a maior parte das produções espetaculares, de caráter mais expressivo, se concentrou no eixo Rio-São Paulo.
Um desconhecido atravessou a avenida movimentada, em plena tarde de sexta feira, e entregou a encomenda para outro desconhecido, que esperava pacientemente na calçada do sentido oposto. Disfarçou, aproximou, passou a mala, deu meia volta e, novamente, cruzou a pista, retornando para o lado original em que estava. Sacou um celular do bolso e iniciou conversa com alguém.
No instante em que os corpos dos dois desconhecidos estiveram muito próximos um do outro, e em fração de segundos, cumpriram com suas obrigações, eu, o terceiro desconhecido, atleta-literato-voyeur, preso num veículo de transporte coletivo insuportavelmente quente, parado no engarrafamento, notei, percebi, pude observar, dei a sorte de captar, flagrar o instante preciso em que o ato camuflado daquelas figuras morenas era posto em execução. Eu não te conheço. Não diga uma palavra quando me ver. Não se dirija a mim. Entregando a bolsa, você cai fora. Não me olhe. Não puxe papo. Não seja legal comigo.
Caos, trânsito, policiais, vendedores de água de coco, cordões de prata à dez reais, anéis com inscrição de Jesus Cristo, fiscais de transportes ilegais (vários), shopping center, carro, ônibus, multidão, sinal vermelho. Velhas, crentes, crianças, guardas de trânsito, apitos, emos, roqueiros, skatistas, lojistas, marginais, crianças de rua, pastel do japonês, mães, viados no banheiro, postos de gasolina, estacionamento... e, em plena efervescência de um dia agitado, em questão de segundos, num horário acima de qualquer suspeita, traços riscados no ar, em forma de figuras humanas, foram flagrados por mim cumprindo um dever. Eram cinco horas da tarde, Um deles atravessou a avenida, entregou a mala sem fazer alarde, sem ser percebido pelos demais, e foi embora.
Durante o trajeto da volta para casa, a cabeça estava posta para fora da janela. Observava com ares de curiosidade o interior dos automóveis e o que poderia haver ali dentro que chamasse minha atenção: o comportamento do motorista, seus modos, como dirigia, se falava sozinho, se batucava com os polegares no volante, se ouvia música, se estava irritado. Tudo muito rápido. Eram flashes, imagens-relâmpago. Apenas uma vez na vida, depois nunca mais. Seria impossível estar ali novamente e ver os mesmos rostos, frisar as mesmas reações no mesmo lugar e no mesmo instante presente. Um séquito de veículos transitava pela avenida estreita, todos com pressa, um atrás do outro, tentando ultrapassadas impossíveis.
Com as pessoas que esbarramos na vida também é a mesma coisa. Dependendo do contato, superficial, intenso, pode durar um minuto, uma hora, um ano ou uma eternidade inteira, depois que se acaba, depois que passa, parece que nunca houve, nunca esteve, nunca viu. Sei e ao mesmo tempo não sei mais de sua vida, também não quero saber. Passou, como os carros e seus motoristas passaram por mim, fumando um cigarro, conversando ao celular ou dirigindo sem o cinto de segurança.
Na hora em que eu estava prestes à desembarcar, percebi que não havia espaço adequado para me locomover dentro do automóvel, visto que aquela zona de acesso entre as poltronas fora ocupada por pessoas irritantemente espaçosas. Uma criatura, disfarçada de serva de Deus, com um vestido roxo dos pés à cabeça, por exemplo, estava sentada ao meu lado, roçando aquela coxa gorda e suada na minha perna, como se a atmosfera sufocante daquela tarde já não fosse suficiente o bastante para evitar qualquer tipo de contato mais próximo. Eu estava com nojo dela e queria que ela morresse. Ou eu é que queria morrer por estar ali dentro passando por aquele sufoco. Ela teria que se levantar para dar passagem, senão eu passaria por cima dela, pouco me lixando para sua condição de evangélica pobre e mal amada, o que não deve deixar de ser verdade.
Quanto aos dois desconhecidos que mencionei no início do conto, não faço a menor ideia da continuação da história de suas vidas. Não me dei ao trabalho de soltar da Kombi para ir ao encalço deles. Teria que me dividir em quantos? Todavia, poderia inventar uma situação de morte. Foram atingidos por alguma tragédia de ordem natural. Decidi, então, transformá-los em criaturas dependentes do meu estado de humor para existirem. Eu tenho capacidade para isso... Mas não! Decidi manter-me fiel ao curso do tempo. Nada de invenções. Nada de final coeso. Não sei deles. Se foram. Cada um foi para o seu lado. E nunca mais eu voltarei a vê-los.
Primeira inspiração Bob Dylan // Depois uma boa ideia // Meus dedos estão dormentes // Encosto uma unha na outra // Percebo as sensações aguçadas // As formigações incomodam // Peço um minuto // Vou alongá-las para ver se a angústia // Passa // Necessidade de nicotina // Tudo se fecha inclusive os bares // Se pelo menos tivesse alguma birosca aberta // De preferência // Próxima da minha casa // Acabei de cortar uma frase desse texto // Achei meio prepotente // Não quero bancar o ridículo e // Cortei outra frase // Idiota // Puta que pariu que vontade de fumar // Tô na seca literalmente // O indivíduo está há na merda há dias e gasta toda grana dele em // Sonhos gordurosos de leite condensado da padaria e // Tudo que faz é pensar no tempo // Cigarros // Come // Pensa nos dias em que conviveu com sua avó // Sonhos gordurosos de leite condensado da padaria e // Já morreu // Pensa nas palavras que ainda vagam pela sua cabeça // (...) // Gasta toda grana dele // A avó dizia que quando ela morresse, ele sentiria muito a sua falta // Era conhecido na família como o "puxa-saco da vó" // Sofrera quando a velha partira dessa para a melhor // Não sofrera tanto // Não como tinha que ser // Não como sua avó achava que ele sentiria // Teve culpa // Chorara // Adolescente de treze anos // Não sentira tanta dor // A prima do seu pai fizera maior escândalo // Uma tsunami misturada com terremoto no Japão // Dor e luto // Não era competente o bastante // Fazia grandes alusões // Nada que fosse // Possível // Quando ele morrer // Sua cabeça // Me deixa quieto // ? // Tem uma imagem que não sai da cabeça // Música // Volume // Palavra // Nada é linear // Hurricane // Não gosto muito // Ouço-a quando penso na mulher com véu no deserto // Imagem em preto e branco // O véu que esconde o cabelo da muçulmana // Afirmava uma presença // Preenchia um espaço // Não era teatro // A forma era trágica // Um véu que voa no vento é trágico // Uma figura andando no meio fio // . // Um dia não devia ter só vinte e quatro horas // Necessidade de ter que me dar bem aos trinta anos de idade // As coisas têm que acontecer agora // Ou vou ter que aguentar os escárnios da vida // Me apontando os dedos inchados pelo ódio me recriminando pelas ruas em forma de parente // A titia simpática e engraçadinha // Uma velhinha maluquete e meio bêbada que adora saber da rotina dos sobrinhos queridos // Não quero pontuar essa frase nem os parágrafos que não existem // Mas as ideias vão dar certo // Não penso mais em sexo // Estou só com trinta anos de // Idade // Como não pensar mais em sexo nem em prazer // Um broxa contaminado pela (in) felicidade do instante que ainda há de te pregar uma peça // Não vai chegar nem ao fim da trepada // E que fim seria esse // Caos total // Não pode haver destruição da alma sem cigarros // Então adio o final da existência para semana que vem // Só me resta enganar o espírito e mentir que quero ser um burocrata // Um corporativo // Empresário comprometido com a sustentabilidade do planeta // Vou dar palestras // Isso // Elaborei planilha // Há um lindo painel explicativo // Os estandes estão abertos à visitação senhores // Coffe breake // Cafezinho // Biscoitinhos // Fudeu // O vício volta a atacar // Há dias que fiquei longe dessa praga // Não não é isso // Não comentei com ninguém // Eu estava a caminho do teatro dentro do // Metrô // Não estava mais fudendo com ninguém // _*%&$¨¨*}@# // Estava bem de verdade // Se fosse no mês passado estaria tirando a camisa pelas pernas e o short pela cabeça // Criar imagens é algo genial // Caí na perdição novamente // Conversei com um cara que queria morrer // Queria levar uma surra até perder os sentidos // Queria ter a cabeça estourada // Adicionei no MSN
Vou disponibilizar aqui no meu blog o endereço onde estão as fotos da performance que apresentei no XIV ENEARTE, em Ouro Preto, em Setembro de 2010.
http://www.flickr.com/photos/nayaragerin/sets/72157624881873399/with/5012342357/
Outros textos sobre a performance publicados aqui no blogue.
http://otragicomicobrasileiro.blogspot.com/2010/06/exposicao-da-carne.html
http://otragicomicobrasileiro.blogspot.com/2009/08/carnica-uma-polemica-celebre-primeiras.html
http://otragicomicobrasileiro.blogspot.com/2010/08/enearte-ouro-preto-2010.html
De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.
(Adélia Prado)
De 19 a 25 de setembro, a cidade histórica de Ouro Preto irá sediar o XIV Encontro Nacional dos Estudantes de Artes. Eu estarei marcando presença lá com a performance que elaborei e apresentei na UNIRIO intitulada Carne, inspirado no romance de Julio Ribeiro. A inscrição já foi feita e agora é esperar a confirmação da data da apresentação. Vamos torcer para que dê tudo certo!!!!! Merda pra nós!!!!!
Maiores informações:
A tese do teatrólogo alemão Hans-Thies Lehmann não podia ser mais clara: devemos entender o teatro como experiência que nos transforma, sejamos nós críticos, criadores ou espectadores. Mais do que insistir em discursos que alimentam e sustentam a meia-verdade de “um estado de crise permanente”, é importante compreender que mecanismos podem ser explorados, de modo a que o teatro se possa desenvolver liberto de falsas ilusões - sejam estas a fabricação de definições ou a criação de valores morais. Lehmann propõe uma das mais lúcidas aproximações ao que gostamos de apelidar, não sem alguma soberba, de “o papel da crítica”, numa reavaliação permanente do seu papel de agente activo e não tolhido por uma retórica desculpabilizadora. Perfeitamente consciente de que o discurso crítico é um acto de observação, sensível às influências, tanto conscientes como inconscientes, Hans-Thies Lehmann, traça um perfil pragmático, e francamente crente, sobre o papel do teatro (e da crítica) nos dias de hoje.
Estar lá pela experiência
entrevista Tiago Bartolomeu Costa
O último congresso da Associação Internacional de Críticos de Teatro [Sofia, Abril de 2008] discutiu o papel do teatro no violento mundo de hoje, e de como pode a crítica intervir quando parece fundar o seu trabalho em planos tão negros e depressivos. Como reage a tal proposta?
Uma das funções do teatro ao longo dos tempos tem sido a de criar imagens, ou articulações, que nos permitam aceder à totalidade dos problemas humanos de uma forma diferente à análise abstracta. Essa função, que é a de produzir imaginação, tem-se vindo a tornar cada vez mais vital pelo facto de as realidades serem, de dia para dia, cada vez mais abstractas, tanto no domínio das ciências, da economia, da política, da teoria. Precisamos de vários níveis de imagens. Antigamente tínhamos o mito, e as imagens permitiam compreender a vida e o universo de forma diferente. Esta função teatral completa-se por uma segunda função: agora que a representação é regulada, as comunicações reguladas são também a norma e a realidade da vida. O Teatro, na maior parte das suas formas, possui a especificidade de ser uma comunicação directa. Diria ainda que considero no termo Teatro todas as formas de acção, ou representação, que nos implicam enquanto espectadores, de maneira diferente da televisão ou do cinema. O teatro deve ser julgado de maneira crítica pelo seguinte critério: será que, ainda que público, me dá a oportunidade de viver uma experiência comigo mesmo? Enquanto público eu sinto-me próximo do teatro/da representação sem uma ideia preconcebida de como me aproximar. Eu não tenho certezas seguras sobre aquilo que está a ser representado. (Isto pode ser uma cadeira, como diria Van Gogh, ou nada de nada). Nós não vamos ao teatro quando vamos ver uma representação de realidade concentrada: esta é a ideia tradicional de mimesis grega. Nós vamos ao teatro para viver uma experiência. É improdutivo esperar do teatro imagens e mensagens ditas “positivas”. Trata-se de fazer articular a realidade. E como gostava de dizer Heiner Müller: “A articulação é uma contribuição para ultrapassar essa mesma realidade.” E isso existe graças ao “comentário”. Veja-se o caso de Sarah Kane. Eu não creio que o objectivo das suas peças seja o de estas serem aborrecidas ou sombrias. Ela chama aos seus escritos, “textos para uma representação” e não “dramas”. Ela utiliza a expressão “textos para uma representação” porque sabe que o teatro utiliza sobretudo um tipo de mecanismo, um tipo de comunicação, que deriva de uma situação de representação. Parecer-me-ia infantil esperar do teatro que nos apresentasse imagens de perdão. Tenho muito receio, que na realidade, uma dada linguagem que proponha o perdão seja despoletada por um desejo de harmonia, quando a realidade em si se suporta no conflito. O teatro não serve para apresentar o perdão como modelo de normalização. O perdão está antes impregnado na prática artística. Dado que o teatro suporta a abertura, a comunicação, a compreensão, ele é assim capaz de nos munir de esperança, ou de uma reacção positiva, perante o mundo e, em particular, na articulação de realidades “trágicas” ou depressivas.
Pensa que procuramos encontrar normas morais como as que existiam nos textos da Grécia clássica? Mas depois de Nietzsche, Brecht ou Fukuyama, haverá ainda lugar para a moral?
Trata-se de uma questão muito importante e muito interessante. Levaríamos anos a falar dela. Ainda assim permita-me sublinhar um ou dois aspectos. Chegámos, nos dias de hoje, a uma separação total entre o nosso comportamento ético e [o nosso comportamento] estético. Ou seja, a arte sempre foi, e continua a ser, uma lugar onde somos capazes de articular as realidades para lá dos nossos julgamentos morais habitualmente superficiais. Eu não penso que a contribuição moral da arte, do teatro ou da representação possa derivar do seu conteúdo moral. Pelo contrário, o moralismo popular hoje é um perigo no domínio político e artístico. Por outro lado, duvido que exista nas tragédias gregas antigas uma “moral” contida nas suas tensões, ambiguidades e conflitos não resolvidos. Não há lugar para uma moral como a de certas peças do séc. XVIII. Uma fórmula que utilizo bastante é: “ A interrupção da estética: o seu corte [o autor utiliza, na conversa, o termo arcaico cesure]” Trata-se de uma função importante do teatro que nos envolva numa experiencia estética cativante, para logo a seguir nos colocar perante um corte, uma interrupção, que nos vai fazer tomar consciência de quão problemática pode ser a inocência do nosso comportamento estético. Por exemplo: Como devo reagir quando se passa em cena algo de moralmente censurável? Sinto-me satisfeito com a minha reacção? Neste sentido, a experiência que temos é uma experiência ética, que provavelmente coloca em causa o comportamento de todos os dias e nos dá matéria para reflectir sobre o nosso comportamento. Vi recentemente uma peça de Dea Loher, que se chamava Inocência [1], que me levou a pensar seriamente na maneira como a nossa aparente inocência é posta em causa mesmo quando não somos mais do que meros espectadores? Seremos nós verdadeiramente inocentes perante o que se desenrola à nossa volta mesmo quando não somos mais do que testemunhas? Destruir esta ilusão de inocência é deveras importante para o teatro. Todos sabemos que os média e comércio negligenciam o potencial provocador da arte. Uma questão suplementar e que, a meu ver, está ligada à possibilidade da voz crítica de, por assim dizer, insistir neste ponto a que chamo de “interrupção da estética. Se pensarmos em artistas como Sophie Calle ou Orlan, e em muitas outras representações, actividades e práticas políticas, podemos mais ou menos retirar uma conclusão geral: a actividade artística está, a um nível como nunca esteve, integrada na vida dos artistas. É extremamente difícil distinguir claramente entre a sua prática artística e a sua pratica “pessoal”.
Será isso possível porque estas aproximações autobiográficas e radicais não são apenas sobre quem as cria mas sobre aqueles que as vêm?
Estou completamente de acordo. É aliás a razão, e a condição necessária, para tornar esse trabalho interessante aos olhos dos outros. Podemos pensar durante horas sobre o gesto radical de utilizar o seu próprio corpo e não somente uma tela, a sua própria vida em vez de uma ficção. Mas o que é interessante aqui é que a ideia tradicional de obra de arte, enquanto realidade diferente da vida do seu criador, se perdeu. Parece-me que hoje os artistas têm a sensação de que esta indeterminação é o único meio para que a “interrupção do gesto estético” ocorra. E à medida que nos aproximamos de uma tal zona de indeterminação provocadora, o trabalho passa a ser sobre nós.
Como se prolongassem, num mundo pós-moderno, a ideia anunciada por Cristo :“Este é o meu corpo, tomai e comei-o”.
Sim, existe um aspecto masoquista, assim como um aspecto religioso, em todas as representações e isto tem a ver com a tendência de despertar naquele que observa um sentimento de culpabilidade. A equação “artista e Cristo” é familiar a esta intenção.Mas vou insistir num outro aspecto. Qualquer trabalho é absolutamente desinteressante se se tratar somente da manifestação de uma personalidade particular. Um tal trabalho não terá qualquer significação para os outros, não passará de uma história pessoal. Mas existe uma tensão interessante, como dissemos anteriormente, no facto de um gesto estético decisivo ser precisamente a destruição de uma distinção clara entre trabalho artístico e a personalidade do artista. Podemos dizer que fazer um trabalho artístico, utilizando como material a própria existência, torna-se pertinente na medida em que põe em questão aquele que observa. E qual é o seu potencial inato para fazer algo de diferente da vida? Um tal trabalho abre um espaço de possibilidade. Existe hoje uma determinada tendência, e eu penso que uma das razões para que tal aconteça é a radical comercialização de todos os objectos estéticos - corpos, objectos de arte, teatro, e até mesmo a prática da representação -, que faz com que, a antiga separação de determinadas práticas artísticas da restante realidade e vida, esteja em vias de ser desagregada. Devemos fazer frente ao facto de ninguém garantir que no futuro a arte continue a ser um território autónomo (mesmo historicamente isto nunca foi um dado adquirido). [A arte] poderá ser cruzada com toda a espécie de práticas em combinações imprevisíveis. E o teatro, e a representação, são práticas que se prestam perfeitamente à incorporação virtual de todos os aspectos do comportamento humano.
O que pressuporá um discurso crítico mais distanciado…
Se o estatuto prático e teórico da estética muda de maneira significativa, existem consequências a longo prazo no discurso crítico. Consequências essas que são já evidentes agora, mesmo passado pouco tempo. Se em alguns tipos de teatro, ou de representação, não se pode “fazer a experiência” senão como participante, onde fica a distância crítica? Como se pode ser distante de um objecto, de uma prática que depende em larga escala da capacidade, possibilidade, vontade, prazer de participar e de realizar? A discussão crítica coloca-se, então, face perante um dilema. Já não se trata de uma discussão distinta sobre categorias estéticas. E isso fará com que procurem argumentos na antropologia, na sociologia, mantendo-se sempre ligada à história de arte e à teoria de arte. Existe esta palavra-chave, “criticalidade”, sobre a qual numerosos teóricos gastam o tempo a reflectir sobre os novos meios de práticas críticas. De resto, como em numerosos outros domínios, da discussão crítica há cada vez menos lugar para posições ingénuas. [Este domínio da discussão crítica] ficará cada vez mais enformado do ponto de vista teórico, ao mesmo tempo que deve estar em contacto mais estreito com a realidade da pesquisa artística. A discussão crítica deverá também, e constantemente, reflectir sobre a especificidade do teatro em comparação com outros meios. Quais são as oportunidades particulares [ao teatro] que não são possíveis nos outros média, como a televisão, os filmes ou a internet? Mais uma vez a crítica é impelida a tornar-se mais teórica. É preciso que, de cada vez [que a discussão crítica for aplicada], questione as bases da prática artística que discute. E isto aplica-se a todas as práticas artísticas relativas a todos os domínios da arte.
Poderíamos então dizer que a discussão crítica se sente perdida?
Diria antes que está ser posta em causa, mais do que estar perdida. É apenas necessáriotratar das coisas num degrau acima. Será certamente mais fácil, diante de um público, apresentar-se como uma autoridade que reitera julgamentos de valor estético sobre o teatro ou a produção artística. Há quem o faça inclusivamente com bastante finesse. Já no início do século XX Edward Gordon Craig havia declarado que o teatro jamais poderia ser uma arte pura. O teatro esteve, e estará sempre, numa posição de compromisso, seja com o mercado, o patrocinador ou o poder politico, por razões estritamente económicas, como a necessidade de fazer dinheiro. E isto também porque, o teatro, nunca é uma forma artística, mas uma realidade banal e não-artística, que consiste em fazer accionar uma realidade de tempo e de espaço, uma situação técnica e social. Por isso o teatro jamais será uma forma de arte pura, e sobre a qual é necessário discuti-la enquanto prática “deitada em várias camas”.
Então porquê esta busca, de forma por vezes obsessiva, por parte dos críticos, da “pureza”?
Para combater a ansiedade. Uma demanda purista relacionada com a ansiedade e a agressão. A incerteza é todos os dias uma realidade da discussão crítica. E isto torna a tarefa deveras difícil. Há uma citação excelente de Walter Benjamin sobre a imprensa: “a imprensa deve estar actualizada todos os dias, e é por esta razão que ela está todos os dias um metro atrasada.” O que faz a actualidade, é a pesquisa, as questões e os problemas que, de um ponto de vista artístico, se colocam a um dado momento. E o mais frequente é que isto nem se transforme, no imediato, em algo interessante artisticamente.
O crítico vê apenas aquilo que é já um “resultado”, a superfície das soluções e não as questões de fundo.
Mas a discussão crítica deve ser, ao invés, um compagnon de route da pesquisa artística, e não tomar como tarefa principal o julgamento de um resultado. A margem de erro é considerável. É preciso esclarecer que esta ideia de compagnon de route não deve ser completamente isenta de um pronunciamento crítico sobre o trabalho. Contudo, a tarefa da crítica é tentar reflectir sobre a questão artística, o problema artístico, procurando concretizar algo que não se demita de reconstruir essa questão artística, ou esse problema artístico. Isso é mais importante do que pronunciar um juízo de valor sobre o “direito a existir” desse resultado. Isto pode no entanto ser excelente em casos individuais. Mas não deixo de sentir que na esfera pública contemporânea, se releva o aspecto comercial ou de marketing: uma, duas ou três estrelas. [A crítica] não vai além da sugestão de ir ver ou não: [isso é] marketing.
A maior parte das vezes imposta pelos jornais e não por escolha dos críticos.
As necessidades inexoráveis do mercado são uma realidade. Mas nenhum de nós se deve servir disso como desculpa. A crítica tem a responsabilidade de sublinhar aqueles aspectos aos quais o público não está habituado, de lhes proporcionar uma plataforma de compreensão, e não somente seguir o entretenimento dominante.
Mas se nos debruçarmos sobre a independência da discussão crítica, ela deve estar ligada tanto à dita objectividade e subjectividade, como à distância que a crítica deve ter relativamente ao artista e ao sujeito. Para quem escreve ele e a quem responde?
Trata-se de uma boa questão para colocar também aos artistas. Se quiser encontrar uma resposta categórica, o crítico deve olhar para si mesmo como um artista, um filósofo, um autor. E um autor é responsável, em primeiro lugar, por ele mesmo, depois pelo objecto, “a realidade” que projecta fazer passar, e somente em seguida, em terceiro lugar, pelo público. Joyce, Proust e Beckett jamais teriam escrito aquilo que escreveram se constantemente se perguntassem “Qual é a minha responsabilidade relativamente ao público?”.Os artistas importantes, assim como os críticos, dirigem-se sempre ao que eu chamaria um público potencial, não um público real. Existe uma bela citação de Adorno que diz “todos os seres humanos, sem excepção, não são já eles mesmos”. O público que hoje recusa um gesto potencialmente artístico e profundo (porque não podem ver para além da provocação ou da forma inabitual que é utilizada), provavelmente em breve, mesmo daqui a alguns anos, estará a seguir o artista e a descobrir novos domínios de possibilidades de expressão artística.
A forma como apresenta as coisas parece dizer que o lugar que o crítico pensa ter, como uma espécie de “olho de Deus”, é um lugar de ficção e que a crítica não tem a possibilidade de ver e saber ou de expor os aparelhos teatrais como bem lhe apetece?
Depois de Hegel, nenhum outro filósofo se imagina no lugar de deus. O século XIX é o último onde podemos encontrar essa ideia de totalidade. Nós não podemos hoje, por meio algum, crer que existe um critério de valor universal para alguém julgar a prática artística. É a realidade de um mundo multicultural. Temos todo um caminho a fazer em direcção às práticas artísticas vindas, por exemplo, da Ásia ou da Índia com as quais não partilhamos conceitos culturais de base. Devemos aceitar o desejo e a expressão de uma certa realidade mesmo que ela seja longínqua ao nosso contexto cultural.
Mas se a discussão artística se deve alargar de forma a conter outras possibilidades, significa isso que podem aumentar as possibilidades de interpretação de uma representação. Será que a teoria é algo aplicável? E neste caso, será que a segmentação da discussão da qual faz parte não conduzirá a uma outra coisa que é, precisamente, a especialização? Ou está simplesmente a fazer uma proposta teórica?
Só muito raramente pode a teoria ser aplicada de maneira directa. Mas a consciência daquilo que não conheço mudará a maneira como escrevo enquanto crítico. Cada artista, cada autor, articula realidades complexas que não conhece forçosamente bem. Ele pode, por exemplo, escrever sobre o meio proletário sem o ter nunca experienciado directamente. De uma maneira geral a arte é a possibilidade de ter experiências que nunca se teve pessoalmente. Sabendo que se trata de um campo limitado, devem-se expor as suas categorias. Se não as considerar adquiridas pode expor a sua perspectiva e isso permite, em retorno, que os outros intervenham e mostrem em que medida as suas observações podem ser falsas, dado que estão ligadas a um contexto específico.
Isto conduz-nos a uma aproximação mais exacta e directa mas é, no entanto, uma aproximação política da discussão crítica assumir o seu próprio contexto e expô-lo?
É sabido que o discurso crítico tem sempre uma dimensão política. Como diz Lacan “a significação daquilo que digo depende da resposta do outro”. O crítico deve estar sempre consciente da dimensão política daquilo que faz. Não acredito num discurso apolítico. Os valores estéticos, e as categorias que aplicamos, não são de um mundo separado, estão sempre ligadas a questões políticas, sociais, e culturais. Mas o aspecto concreto em si mesmo da prática artística, é uma questão complexa dado que não significa, necessariamente, a representação de uma realidade política.
Texto publicado em colaboração com a revista Mouvement. As actas do Congresso Internacional da Associação de Críticos de Teatro serão publicadas em livro em Abril, com apresentação no Premio Europa, em Wroclav, na Polónia.
Hans-Thies Lehmann, teórico do teatro e professor na Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt am Main, na Alemanha, para além de professor convidado das universidades Paris III, VIII e X, assinou, em 1999, um ensaio intitulado Teatro Pós-dramático (Postdramatisches Theater, no original alemão, Verlag der Autoren) entretanto traduzido e editado em dezassete línguas (há uma versão em português do Brasil e a Orfeu Negro prepara uma edição para 2010).
A obra é um marco na formulação do discurso crítico, por lançar luzes que clarificam os jogos teatrais face às possibilidade de recepção. Em tudo o que possa significar teatro, tendemos sempre a dimensioná-lo a partir da sua relação com o texto e o significado das imagens proporcionadas por este. Diz-nos Lehmann: “o que me interessa mais são os movimentos e desenvolvimentos, por isso escreviPostdramatisches Theater, que reúne parte das minhas reflexões ao longo dos anos em que me dediquei ao teatro. Tinha a impressão, pelo menos nessa altura, que não existiam linhas que pudessem traçar, para o futuro, um determinado número de novas maneiras, de novas formas, de pesquisa teatral. Sobretudo linhas que assentassem em julgamentos standard baseados no conceito estabelecido de teatro ‘dramático’”. Postdramatisches Theater observa o fenómeno teatral a partir dos diversos sistemas de análise que, ao longo dos séculos, o fundamentaram, nomeadamente o paradigma clássico e o modo como a cena contemporânea rompeu barreiras de forma a “inventar” um teatro actual. Convidando-nos a seguir uma prática crítica confrontada com as transformações sociais, políticas e culturais que assistem a criação artística, o autor de ensaios sobre Brecht, Sarah Kane e Heiner Müller, procura fazer relacionar o incornformismo do teatro com prática crítica, tendencialmente distante, numa obra que recentra o olhar crítico no objecto produzido, e com isso em toda o referencial de circunstância que o enforma.
Publicado na revista Obscena, Nº 18, Mai / 2009. (http://www.revistaobscena.com/index.php?option=com_content&view=article&id=318:hans-thies-lehmann&catid=17&Itemid=144&lang=pt)