30 de ago. de 2009

Ensaio nº 1 - A Carniça: Uma Polêmica Célebre, primeiras considerações

Em fins do século XIX, mais especificamente, no ano de 1888, o filólogo, gramático, professor acadêmico e jornalista Júlio César Ribeiro Vaughan, ou simplesmente Júlio Ribeiro (1845-1890), publica seu segundo e último romance, considerado pelos pesquisadores contemporâneos em literatura brasileira como “um dos livros mais discutidos e mais populares do pais”, dedicado especialmente ao “príncipe do naturalismo” francês Emilio Zola: A Carne.


Diferentemente do primeiro, O Padre Belchior de Pontes, lançado dez anos antes, a obra do mineiro, nascido na cidade de Sabará, recebeu os piores qualificativos dos críticos de sua época, sendo seu autor taxado de imoral e indecente, “promovendo um indisfarçável mal-estar na crítica do tempo” e o livro, estigmatizado como “o mais irrelevante e pornográfico das letras brasileiras”.


Dentre todos aqueles que recorreram à pena para atirar pedras ao escritor (como os críticos José Veríssimo e Alfredo Pujol, só par citar dois exemplos) um deles tornou-se o mais ilustre. Ativo membro do clero católico e, de passagem pelo Brasil, o erudito e também polemista português Senna Freitas, obtendo boas relações entre os acadêmicos da época, inclusive com Júlio Ribeiro, ousou atacar a obra do mineiro, espetando-a com sua pena de aço e sacudindo-a para dentro da carroça de lixo da cidade. Sua crítica fora publicada no Diário Mercantil assim que o lançamento da obra ganhava notoriedade entre os cidadãos que desejavam, intensamente, adquirir a narrativa, “de exaltação dionisíaca”, publicado pelo livreiro Teixeira. Antes mesmo de sua publicação, e Senna Freitas aponta este detalhe em sua resenha, o livro já era aguardado com ansiedade. “Não faltou ao romance, ainda na época da gestação, a fanfarra do anúncio prometedor, nem tão pouco lhe tem faltado, depois de nascido e exibido nos livreiros, o cartaz de esquina e o artigo de jornal”.


O padre portava-se, em sua crítica, como o detentor da moralidade brasileira, atacando tanto a obra quanto o autor, intitulando o artigo do referido romance como A Carniça. Segundo o crítico, o enredo era frouxo, inverossímil, incoerente, e de chofre, advogava ideias como o amor livre e bissexual. Contestava o escritor quanto ao seu gosto literário, afirmando que de nada adiantava revestir a luxúria e o pecado em expressão estética, afirmando em seguida que “Júlio Ribeiro deixou a demonstração que a forma não é tudo. A forma não consegue salvar o fundo quando o fundo é detestável” continuando em seguida, “porém causa engulho e muitíssimo pesar o ver que toda aquela roupagem cetinosa, que toda aquela joalheria são destinadas a ataviar um acervo de obscenidades indignas de um homem que se respeita e respeita o público para quem escreve”.


David Perdigão Lessa aponta em seu ensaio que, devido ao preconceito dos críticos do século XIX aos temas carregados de erotismo dos romances da estética naturalista, seus autores viam-se na obrigação de explicar o conteúdo de seus enredos para que não sofressem novos ataques. “Esse fato fez com que alguns autores (...) defendessem suas obras da fúria dos críticos mais exaltados. Defesas essas que foram feitas em jornais, revistas e até mesmo em prefácios”.


Júlio Ribeiro foi um destes. Decide responder as afrontas do padre português com uma série de artigos que foram publicadas na Província de São Paulo. Segundo o professor Carlos Alberto Iannone, “Júlio Ribeiro chama-lhe ‘Urubu’, pois farejava ‘carniça’. Inicia-se desta forma a polêmica que encheu de espanto os habitantes da pequenina Paulicéia e que mais tarde foi reunida em volume sob o título Uma Polêmica Célebre”, compilado pelo escritor Victor Caruso e publicado pelas Edições Cultura Brasileira, em 1934.

Bibliografia

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Discurso do Sr. Manoel Bandeira. In: Discursos Acadêmicos - Tomo III, 2007, acessado em http://www.academia.org.br/abl/media/Tomo%20III%20-%201936%20a%201950.pdf, 14/04/2010.

BULHÕES, Marcelo Magalhães. Leituras de um livro obsceno. In: A Carne. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002.

________________________. Leituras do desejo: o erotismo no romance naturalista brasileiro. São Paulo: Editora Edusp, 2003.

IANNONE, Carlos Alberto. A obra de Júlio Ribeiro. In: A Carne. São Paulo: Editora Três. 1972.

LESSA, David Perdigão. Júlio Ribeiro e a crítica literária. IN: Gláuks - Revista de Letras e Artes. UFV, v. 7 n.2, pp. 157-175, 1996.

RIBEIRO, Júlio. A Carne. São Paulo: Editora Três, 1972.

12 de jul. de 2009

Crítica - Metafísica, filosofia, arte... substância ou vibração? Divagações de um sujeito inumano

A teoria da arte no século XX é pautada pela quebra de paradigmas, pela incerteza das teorias e pelo questionamento de todos os valores morais (fundamentados à partir de uma mentalidade altamente burguesa) que aprisionaram a sociedade ocidental durante a hegemonia radical e perversa do pensamento judaico-cristão.

Depois de duas grandes guerras, o artista não podia mais continuar contemplando a vida, ou melhor, a destruição da mesma. O homem se desintegrou. A identidade deste sujeito descobriu-se múltipla, analisada sob diversas perspectivas. O EU tornou-se uma ilusão. E a matéria? Tudo isso que envolve e dá suporte a este sujeito cindido, do que ela é formada?

A crise da dúvida também afeta a produção do saber contemporâneo, quando relatos de pesquisadores, comprometidos com a física moderna, nos chegam afirmando que tudo que forma a matéria, na verdade, são compostos de átomos passíveis de vibrações. Então os átomos não são elementos sólidos? A mesa, a cadeira, as massas que ocupam lugar no espaço, a natureza, o sol, os astros, são formados de partículas que interagem formando ondas? Como assim? Percebem que o paradigma do pensamento científico caminha para uma mudança? Então a arte também tem que acompanhar esta evolução do modo de pensar.

E talvez seja este o nosso propósito quando aceitamos participar do Projeto OH: Sobre a contemporaneidade do som, que vai acontecer no dia 15/7/2009, no Espaço Cultural Sérgio Porto. Ali, gritaremos para o mundo que a lógica não é soberana e que as sensações de nossos corpos também podem reger partituras de movimentos que criam outros sentidos, não o racional, o que satisfaz o espírito, mas aquele que nos impulsiona, que nos faz agir ou que nos mobiliza para uma vontade de reagir. Esta é a busca pelo som inarticulado, portador de uma pulsão que toma de assalto nossos orgãos sensoriais, produzindo movimentos, satisfazendo a natureza de nossa vontade que responde, criativamente, por meio de modulações variadas: alto, greve, médio e por ai vai.

Parece loucura, mas este é o princípio que norteia a minha arte, ou a arte daqueles que buscam a essência das coisas, e que não se satisfaz somente com o belo, com a separação da arte e da vida, que se contenta com a superficialidade que determinados segmentos artísiticos contemporâneos insistem em empurrar guela abaixo, cobrando ingressos caríssimos para contemplar a mediocridade de espetáculos que propagam a felicidade imitando, aqui, o modelo estrutural de outros países, que cantam e dançam para uma plateia morta e que se acham cultas só porque frequentam estes teatros.


Quatro Sonetos à Afrodite Anadiómena. (Poemas do português contemporâneo Jorge de Sena)
Com Guto Urbieta, Jackie Netzach, Michelly Barros e Pedro Allonso
Concepção: Jackie Netzach,
Seleção de texto: Eduardo Camenietzki,
Orientação: Elielson Barros,
Intervenção que mescla poesia e seus estímulos sonoros e corporais.


SERVIÇO OH
Espaço Cultural Sérgio Porto
Endereço: Rua Humaitá, 163 - Humaitá
Data: 15/07/2009
Horário: 19h
Preço: R$ 4
Classificação: Livre
Informações: 21. 2266.0896

Evento OH, dia 15/7, às 19h no Espaço Cultural Sérgio Porto


Quatro Sonetos à Afrodite Anadiómena. (Poemas do português contemporâneo Jorge de Sena)
Com Guto Urbieta, Jackie Netzach, Michelly Barros e Pedro Allonso
Concepção: Jackie Netzach,
Seleção de texto: Eduardo Camenietzki,
Orientação: Elielson Barros,
Intervenção que mescla poesia e seus estímulos sonoros e corporais.

SERVIÇO OH
Espaço Cultural Sérgio Porto
Endereço: Rua Humaitá, 163 - Humaitá
Data: 15/07/2009 Horário: 19h
Preço: R$ 4
Classificação: Livre
Informações: 21. 2266.0896

9 de jul. de 2009

"[...] A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muita barulheira, que nada significa".

Crítica - Som e Fúria: qualidade e diversão garantidos

Há quanto tempo que eu não me entusiasmo com um trabalho produzido para televisão! Põe tempo nisso... Este SOM E FÚRIA, que está sendo exibido atualmente na Globo, me motivou a assistir televisão novamente! Me fez olhar para o relógio, nesta quarta feira à noite, e desejar a morte de todos os jogadores de futebol e de todos os narradores esportivos - principalmente daquele chato-mor, que acredita carregar em sua voz, o grito emocionado do brasileiro médio e semi-alfabetizado - ávido para que aquela transmissão acabasse logo, e que eu pudesse assistir ao seriado, sentado na minha cadeirinha, beliscando umas azeitonas, ou, à moda Hommer Simpson, relaxando e bebendo uma cervejinha, sem me importar com frio que tem feito ao caír da noite... É a primeira vez que vejo Shakespeare sendo tematizado na televisão, e vou mais além, nunca vi a dureza, os transtornos, a vaidade, as frustrações, tudo que circunda a estrutura do fazer teatral sendo representado na sua integridade, na sua inteireza, sem falsas representações. A linguagem do seriado, na simplicidade com que o enredo é conduzido, sem hermetismos de estilo (ao contrário das últimas produções dramaturgicas exibidas no horário) permite que se faça televisão no teatro e vice-versa, encerrando no Teatro Municipal de São Paulo a metáfora do palco como mundo contemporâneo, onde todos os personagens-atores se preparam para encenar Hamlet. Felipe Camargo brinca em cena. Está mais do que claro que este é um dos grandes papéis de sua carreira. Aliás, o elenco desta microssérie foi escolhido à dedo.Som e Fúria é o grito pela renovação do repertório televisivo, que insiste em nos empurrar, guela abaixo, as mofadas e engessadas novelas (sombras ambulantes, histórias contadas por idiotas) em seus tradicionais horários e que nada significa.

27 de abr. de 2009

Crítica - Sobre o suicídio

A estréia, no Espaço SESC, do mais recente espetáculo da Cia. Ensaio Aberto, não foge à linha de atuação artística do grupo, que tem no engajamento político sua marca registrada. Aqui, o material utilizado pelo encenador Luis Fernando Lobo é um artigo pouco conhecido do filósofo alemão Karl Marx, publicado em 1846, que por sua vez, utilizou-se de fragmentos de memórias, publicadas pelo diretor dos arquivos da polícia francesa, Jacques Peuchet, também no século XIX, onde relatava casos de vítimas, em sua maioria, mulheres de origem burguesa, que resolveram se matar por motivos particularmente reconhecíveis àquele meio social: pressão familiar e da sociedade, autoridade paterna, dominação do sexo masculino sob o feminino e por aí vai.


A linguagem do espetáculo é completamente narrativa, preferindo o encenador trabalhar com o material bruto do texto de Marx, ou seja, o espectador assiste, ou melhor, ouve, através dos atores, o conteúdo do artigo escrito pelo pensador alemão. Em Sobre o suicídio, o texto é pronunciado de forma crua, sem que haja, no ato da narração, qualquer resquício de construção de personagem. Aliás, não há personagens mimeticamente elaborados e vividos em cena, que dialogam entre si como numa dramaturgia convencional. O que há, ali, é o texto, um grande e pesado bloco de palavras e suas diversas formas de enunciação.


O elenco formado por Fernanda Avellar, Françoise Berlanger, Tuca Moraes e Luis Fernando Lobo, ora intercalam as réplicas, ora dizem, todos ao mesmo tempo, as passagens extraídas do artigo de Marx, numa polifonia que põe, de igual para igual, a voz dos atores (uma atriz estrangeira integra o elenco), a trilha sonora de Felipe Radicetti, a iluminação rigorosa de Jeff Dubois que auxilia na criação de espaços e de imagens que se desprendem da narrativa, principalmente nos casos relatados em primeira pessoa, além das várias projeções em vídeo, utilizando documentários de razoável repercussão no debate social, elaborados por Batman Zavareze e Fábio Ghivelder. Todos estes dispositivos juntos, não só contribuem para preencher todo espaço da cena, como também perturbam, positivamente, a concentração da platéia-ouvinte. Todos estes signos, auxiliados pelos poucos adereços cênicos manipulados pelos atores, preenchem o palco. Encaro este ponto de vista como um interessante desafio para quem está no lugar do público, pois o espetáculo exige tanto um espectador atento quanto uma atenção redobrada ao que está sendo dito em cena, retirando a platéia do lugar confortável da pura contemplação. A encenação, neste caso, funciona como um verdadeiro embate entre o que é dito-lido, quem fala-lê e quem ouve.


A intermidialidade, tematizada na projeção das imagens, funciona como uma espécie de janela que se afasta brevemente do quadro social do século XIX e dos relatos das suicidas, narrados por Peuchet, mas que se relaciona na reflexão dos problemas contemporâneos, que ainda são encarados como tabu, como pudemos assistir na projeção do trecho em que acompanhamos mulheres humildes relatarem seus casos de aborto. Neste caso específico, o diálogo estabelecido se dá na identificação, nos dias de hoje, de casos que também deveriam ser tratados pela saúde publica, porém são negligenciados pelas autoridades, por questões tanto morais quanto religiosas - como o suicídio, detectado por Marx em seu artigo - evidenciando ainda mais os sintomas de uma sociedade doente e abandonada à própria sorte.


Elogios à parte, é necessário dizer que alguns atores, pelo menos no dia da estréia, ainda não tinham encontrado o tom certo de pronunciar o texto, incorrendo em visíveis erros de marcação e em exageros de vocalização, falando o texto de forma gritada, mesmo com a utilização do microfone. Acredito também que alguns minutos a menos seriam bem vindos para que a platéia pudesse encorpar melhor, tanto a denúncia contida nos escritos de Marx, quanto a proposta estética da companhia neste espetáculo, pois ficou nítido que o cansaço pairou sobre a platéia do SESC no dia da estréia. Mesmo assim, considerando que estas ressalvas possam ser verificadas no decorrer da temporada, considero um espetáculo sério, político e também, contrariando ao que muito foi dito, teatral.

28 de set. de 2008

Crítica - A crítica teatral e sua função nos novos tempos

Por Sebastião Milaré

Qual a função do crítico dramático hoje? Será ele ainda um pensador ou simples divulgador de teatro?


A crítica é inerente à produção da cultura dramática. Não se pode imaginar o desenvolvimento de um teatro nacional sem o respaldo de intelectuais conhecedores da arte, capacitados à análise e discussão do fenômeno estético. Sob esse ponto de vista, a crítica tem função analítica e organizadora das diferentes correntes de pensamento que incidem na produção dramática. Isso não se altera com a mudança do calendário e permanecerá valendo no século que se inicia.

O que me parece importante discutir é o espaço da crítica nas novas conjunturas e em face das tecnologias que transformam radicalmente os meios de comunicação. Por tradição, temos a imagem do crítico ligada a um periódico, à coluna de um diário ou semanário, e sua função confunde-se em certa medida à do jornalista: informa o leitor sobre a qualidade do espetáculo. Isto é verdadeiro... ou melhor, é uma meia verdade. O jornalista ao redigir a notícia deve ser objetivo, ater-se ao fato e não interpreta-lo; deve ser tão imparcial quanto possível. Já o crítico é também objetivo, mas interpreta o fato (no caso, a obra colocada em cena) e é apenas relativamente imparcial, já que a apreciação da obra cênica tem muito de subjetivo, representando antes de tudo um ponto de vista – o ponto de vista do crítico. Diferenças que separam nitidamente a função do crítico à do jornalista, embora nada impeça que uma pessoa exerça ambas as funções com muita competência.

O problema dessa imagem do crítico é que o afasta do criador cênico para aproximá-lo do leitor do periódico. Numa simplificação, apenas o leitor seria o interlocutor do crítico, dificilmente o artista. Isto leva à crença de que crítica desfavorável ao espetáculo determina o fracasso do mesmo; assim como crítica favorável engorda a platéia. Crença que, no Brasil, é sistematicamente negada pela realidade: muitos espetáculos francamente repudiados pela crítica tornam-se triunfos de bilheteria e outros, elogiados pela crítica, ficam com as salas vazias de espectadores. Então a crítica é uma inutilidade? Certamente, como inútil é a própria arte. E quanto mais gratuita for, quanto menos estiver “a serviço” do que quer que seja, mais próxima estará de trazer grandes benefícios à sociedade.

Já ouvi vários críticos – e dos bons – colocarem-se como “espectadores privilegiados”. Permito-me discordar deles. Na verdade, o bom crítico domina um instrumental teórico que pouco espectador possui, e tem o olho treinado para ver sutilezas, movimentos e gestos cênicos, conseguindo imediatamente relaciona-los à obra ou ao pensamento poético que os inspira ou que se pretende materializar cenicamente. Dessa relação é que nasce o ponto de vista crítico. Assim, o crítico é um especialista e não um “espectador privilegiado”. Vê o espetáculo como um pensamento transformado em imagens, sons, movimentos, luzes, e discute esse pensamento. Sua interlocução com o leitor do diário é positiva. Não qualquer leitor, certamente, mas aquele que tem algum interesse pela arte. A leitura constante de boas críticas ajudará esse leitor a educar a sensibilidade, a desenvolver capacidade analítica, habilitando-se à perfeita fruição do produto estético – deixa de ser mero “consumidor”.

Sendo pessoa capaz de ler e discutir o pensamento veiculado pela obra (ou o pensamento que é a obra), outro importante interlocutor do crítico é o próprio artista, o criador cênico. A relação entre esses personagens é sempre complicada, pois implica a imagem que cada um faz de si mesmo e do seu trabalho. Às vezes tal relação desanda em agressões. Mas, sobra, inevitavelmente, a reflexão expressa na crítica que, de uma maneira ou de outra, oferece algum subsídio ao criador. E esse fato exprime, no contexto do teatro atual, novos campos e novos espaços onde a atuação do crítico está muito mais próxima à do criador, estabelecendo novos modos de diálogo.

Nesses novos espaços, ainda não suficientemente explorados nem resolvidos, surgem duas figuras que nem sempre são encarnadas por críticos, mas cujas funções estão absolutamente vinculadas ao exercício crítico: a do dramaturg ou dramaturgista e a do programador. A primeira tem ligação orgânica com o trabalho criativo, na medida em que busca junto dos criadores cênicos estabelecer perspectivas para a interpretação da obra. A segunda, faz ponte entre a criação estética e o público, buscando captar a dinâmica da produção teatral e organizando sua mostra em determinados locais.

No Brasil, há pelo menos duas décadas, proliferam festivais ou mostras competitivas, em cidades do interior, alguns de âmbito nacional, onde críticos (embora nem sempre críticos) são contratados como membros de comissão julgadora, tendo que debater com os artistas e o público cada obra apresentada. Constitui um exercício estimulante da crítica imediata, direta, provocando um diálogo proveitoso tanto para o crítico quanto para os criadores, também para o público presente e, muitas vezes, participante do debate. Desse modo, vemos ampliarem-se os espaços da crítica, embora construídos caótica e irregularmente. Os periódicos, hoje, parecem ameaçados pela Internet. Mas seria um exagero estimar a “morte” da imprensa diária, como foi exagero estimar que o cinema mataria o teatro e, depois, que a televisão mataria o cinema. Mais legítimo seria louvar o aparecimento de um novo meio para veicular idéias. Surgem na rede sites noticiosos, abrigando links de crítica teatral. Porém, quase sempre, esses sites reproduzem no novo meio linguagens e critérios da imprensa diária, confinando a reflexão crítica a planos secundários. A Internet, no entanto, é um meio generoso, amplo, democrático, e poderá vir a ser importante espaço à reflexão crítica, com sites dirigidos ao público interessado na arte, sem restrições nem condicionamentos editoriais.

Creio que a função da crítica teatral neste novo século continua essencialmente a mesma, porém dinamizada e difundida por novos espaços. Justamente esses novos espaços é que devem ser avaliados, otimizados, de modo que a crítica possa readquirir seu sentido didático, provocador e criativo. A crítica teatral frente às novas tendências cênicas Ao longo do século 20 a encenação foi adquirindo autonomia, separando-se da literatura, da qual tradicionalmente era entendida como subproduto. As revoluções dos conceitos cênicos desde Antoine até Brecht, passando por Paul Fort, Gordon Craig, Stanislavsky, Meyerhold, Komisarjevsky, Artaud e tantos outros, abriram horizontes que foram exaustivamente explorados por criadores no mundo todo, depois da Segunda Guerra, incidindo em novos paradigmas, novas linguagens, conferindo à encenação peculiaridades que a tornam um tipo de expressão singular, único, provido de dinamismo próprio. Sem dúvida o texto dramático continua sendo um dos fundamentos do teatro, mas deixou de ser o fundamento. Por outro lado, encenadores geniais, que dominam códigos estabelecidos e os transgridem, revelam valores no texto dramático que o crítico e o ensaísta tradicionais não conseguiam vislumbrar. A liberdade de desconstruir e reconstruir, marca da encenação contemporânea, possibilita a exploração desses valores numa viagem para dentro da obra, examinada e vivenciada na prática cênica e não apenas com o instrumental teórico do ensaísta. São procedimentos e códigos novos que desvendam horizontes insuspeitados em peças de Shakespeare, por exemplo.

No Brasil, a obra de Nelson Rodrigues era depreciada, vista como comédia de costumes com fortes tonalidades pornográficas, até o encenador Antunes Filho desvendar suas potencialidades poéticas ao reunir quatro peças do autor no espetáculo Nelson Rodrigues, O Eterno Retorno, reafirmando a condição mítica dessa obra com Paraíso, Zona Norte. A técnica de Antunes Filho no trabalho com o texto representa tendência já consolidada no teatro brasileiro -- faz uma cirurgia na peça, buscando através da pesquisa e do estudo seus elementos essenciais, dispensando os dados acessórios, ilustrativos, os comentários paralelos, para trabalhar os aspectos nucleares do drama. Técnica que exige do encenador grande conhecimento da arte, pois não se trata de simplesmente “cortar” o texto, mas de revelar a poesia: elimina partes supérfluas para desvendar a estrutura poética. Outra tendência marcante do teatro brasileiro atual dispensa as formas arquitetônicas tradicionais e concretiza o drama em espaços inusitados. Há, nessa linha, o trabalho radical de Ricardo Karman, que leva o espectador para dentro de um túnel em construção, muito profundo, com a extensão de 800 metros, passando sob um rio; em outra encenação, utiliza aterro sanitário, teatro em ruínas, floresta e represa, conduzindo os espectadores a esses locais em ônibus, num trajeto de aproximadamente 140 quilômetros. Ou o trabalho de Antônio Araújo, que torna os próprios espaços protagonistas do drama. As três obras realizadas por Araújo nessa linha – Paraíso Perdido (em igreja), O Livro de Jó (em hospital) e Apocalipse 1,11 (num presídio) – são exemplos eloqüentes de diálogos da encenação com o espaço, estabelecendo novo conceito de ação dramática. Ponderável também a incidência de tentativas da fusão de teatro com dança, onde o diálogo da dramaturgia com a coreografia funde códigos das duas áreas criando nova linguagem. Com Domésticas, Renata Melo realiza um discurso inovador, atestando a viabilidade dessa idéia que reduz, tanto o texto dramático quanto o desenho coreográfico convencionais, a suportes da linguagem cênica. E assim o teatro se reinventa a cada passo, exigindo do crítico novas posturas, novas maneiras de se relacionar com a obra e nova ética.

Não faz mais sentido a crítica que se prende ao texto como um náufrago a um pedaço de madeira, passando rapidamente sobre as questões da encenação. E também não faz mais sentido o crítico que se mantém afastado do fazer teatral cotidiano, como se a relação direta com os criadores fosse conspurcar o seu trabalho. Não faz mais sentido fechar-se numa interpretação teórica do original e não admitir que possa haver diferentes leituras da obra, considerando “um erro” qualquer interpretação diferente da sua. O crítico contemporâneo tem que soltar as amarras, deixar-se conquistar pelo dinamismo do teatro, admitir a contradição como matéria-prima do pensamento dramático em sua materialização cênica. Evidentemente o texto continua sendo um grande referencial da criação cênica, mas interessam igualmente os processos criativos, os meios pelos quais o artista procura atualizar os velhos textos e, com eles, desvendar novos horizontes, novo entendimento do ser humano, da condição humana. Mas o próprio processo pode, muitas vezes, implicar a dramaturgia, dispensando o texto formal ou convencional. O crítico contemporâneo precisa aceitar os desafios desse teatro. Precisa dialogar com os criadores, informar-se dos processos. Só assim evitará o risco de confundir um dado novo com modismo e enaltecer modismos como inovações. O polêmico Antunes Filho desabafou certa vez, frente a confusão de conceitos de alguns críticos em comentários sobre montagens suas: “Não se pode ver os novos paradigmas com o olhar velho”. E essa é uma grande verdade.

MILARÉ, Sebastião. A crítica teatral e sua função nos novos tempos.http://www.antaprofana.com.br/materia_atual.asp?mat=295. 28/09/2008.

Foto: Cena de "O Livro de Jó", pelo Teatro da Vertigem, direção de Antônio Araújo.

26 de ago. de 2008

FILM, de Samuel Becket. 1965.

22 minutos
Preto e Branco
Diretor: Alan Schneider
Cenario: Samuel Beckett
Cast: Buster Keaton
Produção de Evergreen Theatre, Inc.
Quem quiser ler o depoimento de Alan Schneider, diretor do filme, basta clicar em http://www.ubu.com/papers/beckett_schneider.html
Boa viagem!